Narrar é preciso

Narrar é  preciso: a integração das áreas do conhecimento no uso da tecnologia como linguagem na produção de narrativas digitais

Os meios de comunicação mudaram. Tecnologias como celulares, recursos de geolocalização, mídias sociais e jogos interativos têm redimensionado nossa relação com a  informação e a manipulação de dados (textos, imagens e áudio)  modificando a forma como as linguagens são interpretadas, produzidas e compartilhadas. Qual será o impacto desse cenário na arte de contar histórias?
Em certo sentido, ferramentas digitais são como livros. Ao interagir com elas, praticamos formas de leitura, atribuindo sentido, e de escrita, construindo sentido. Nesse sentido, mídias sociais e livros, assim como televisão e filmes, são formas de letramento. Do mesmo modo que ensinamos os alunos a interagir com os livros, por meio de práticas de leitura, reflexão, crítica e escrita, devemos ensiná-los a interagir com as mídias sociais. 
Ora, mas se livros e ferramentas digitais são tão semelhantes, o que deverá mudar no processo de aprendizagem? Nesse aspecto, o professor deverá notar que as mídias digitais exigem formas às vezes um tanto complexas de linguagem técnica. As crianças de hoje terão que ler e escrever com dispositivos eletrônicos dotados de interfaces digitais diferentes, mídias sociais com lógicas próprias e muita informação sendo produzida em tempo real, permanentemente. 
Nesse contexto, novas habilidades são necessárias. Além de dominar as linguagens técnicas exigidas por cada meio, os alunos precisarão engajar-se em trabalhos colaborativos, nos quais a inteligência coletiva será mais importante do que o desempenho individual; deverão ser criativos e inovar, adquirindo capacidade para gerar respostas em situações complexas; enfim, deverão produzir com mídias sociais e outras tecnologias e não apenas consumir seu conteúdo (GEE, 2013). 
Considerando que todos estamos aprendendo a lidar com essa nova cultura, gostaríamos de compartilhar um pouco de nossa experiência e sugerir uma sequência didática, que pode ser usada na construção do conhecimento a partir da produção de narrativas digitais.
“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, dizia o cineasta Glauber Rocha. Trocando a câmera por celulares (que também são câmeras), professores podem adotar práticas pedagógicas que permitam aos alunos do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, o exercício do protagonismo e da autoria, passando de consumidores a produtores de informação. Um celular na mão e uma narrativa na cabeça, pois narrar é preciso!
A narrativa digital pode “ser uma ‘janela na mente’ do aluno, de modo que o professor possa entender e identificar os conhecimentos do senso comum e, com isso, possa intervir, auxiliando o aprendiz na análise e na depuração de aspectos ainda deficitários na aprendizagem, ajudando-o a atingir um novo patamar de compreensão do conhecimento pessoal. Assim, além da produção em si, e do fato desta produção ser feita por intermédio das tecnologias, podemos analisar o conteúdo da narrativa, no sentido de trabalhar este conteúdo, criando condições para que o aprendiz possa realizar a espiral da aprendizagem e, com isso, construir novos conhecimentos bem como estabelecer bases críticas de análise e compreensão de si próprio e do mundo que o cerca (ALMEIDA; VALENTE, 2005; 2013).
O uso da linguagem audiovisual, em sequências didáticas, permite o exercício de diversas habilidades que são referências em matrizes estaduais e nacionais, assim como SARESP e ENEM: a capacidade de interpretar, de identificar, de adequar e de produzir diversos gêneros literários; de desenvolver habilidades em diversas linguagens; de  organizar em sequências lógicas itens de informação explícita; de recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e de informação na resolução de problemas sociais; de reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens; de reconhecer no texto estratégias argumentativas; de reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e da informação; de identificar, pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação, e de relacionar essas tecnologias de ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem.
Considerando a parte prática de nosso trabalho, indicamos a seguinte sequência didática para a construção de narrativas digitais:

  1. Lançamento: elabore uma enquete a ser preenchida com uma situação problema e proponha uma forma de integrá-la na produção de narrativas digitais;

  2. Imersão: levante o conhecimento prévio referente aos temas apontados e registre as hipóteses de construção e análise de narrativas digitais já existentes referentes  às  hipóteses levantadas; 

  3. Planejamento: apresente os elementos de um roteiro a ser usado na composição da narrativa digital. O roteiro pode ser apresentado a partir, por exemplo, de um mapa mental. 


É importante destacar os seguintes elementos no roteiro:
 
  • Identificar o ponto principal da narrativa;

  • Atrair a atenção do espectador para o ponto principal;

  • Resolver a questão-problema ao longo da narrativa;

  • Utilizar problemas importantes que, relacionados a uma área específica do conhecimento, ganharão vida e conectarão o público à narrativa;

  • Personalizar a narrativa, ajudando o público a entender o roteiro;

  • Escolher uma trilha sonora que dará suporte emotivo à narrativa;

  • Sintetizar os fatos contados na narrativa, evitando, com isso, cansar o espectador;

  • Criar ritmo, aumentando a expectativa conforme se aproxima o desfecho.

 
Ao longo do processo, podemos considerar as seguintes etapas para intervir e orientar nossos alunos:
 
  • Expansão: expandir e enriquecer a construção das narrativas com aulas de apropriação e instrumentalização tecnológica;

  • Produção: orientar a produção com as possibilidades de construção da narrativa digital utilizando textos, fotos e áudio (narração, efeitos sonoros ou trilha gratuitas);

  • Pós-produção: disponibilizar as narrativas digitais permitindo que outros alunos tenham acesso à produção, recriando novas narrativas digitais;

  • Avaliação processual: avaliar as etapas desenvolvidas para a construção da narrativa.

 
Quando falamos em trabalhar com tecnologia em sala de aula é importante destacar que não precisamos de um ambiente repleto de computadores de última geração para agir. Com a expansão da banda móvel nos últimos anos, a maioria de nossos alunos possui um celular ou tablet com acesso à Internet. Por que não usar esses recursos com finalidades pedagógicas? Claro, alguns cuidados são necessários. Por exemplo, uma aula de cidadania digital sobre princípios e regras para a convivência online, assim como recomendações de procedimentos para navegar com segurança são condições essenciais para o uso pedagógico dos equipamentos.
 
Referências:
 
  • 10 dicas para contar histórias digitais convincentes.  Disponível em: <http://migre.me/gVDoV>. Acesso em 21.nov.2013.

  • 10 sites de download de músicas e efeitos gratuitos para trilha sonora de filme. Disponível em: <http://migre.me/lEVWY>. Acesso em 15.set.2014.

  • ALMEIDA, Maria E. B de; VALENTE, José Armando. Integração currículo e Tecnologias e a produção de narrativas digitais. Currículo sem Fronteiras, v. 12, n. 3, p. 58, Set/Dez 2012. Disponível em: <http://migre.me/gURGx>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Aprendentes das Narrativas Digitais. Disponível em: <http://migre.me/gVDpi>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Entrevista sobre Narrativas Digitais. Disponível em: <http://migre.me/gVDrj>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Etapas da Narrativa Digital. Disponível em: <http://migre.me/gVDqE>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Gee, James Paul. The Anti-Educational Era. Creating Smarter Students Through Digital Learning. New York, Macmillan, 2013. 

  • Influências dos meios digitais na narrativa. Disponível em: <http://migre.me/gVDsU>. Acesso em 21.nov.2013.

  • infoENEM.  Competências e Habilidades. Disponível em: <http://migre.me/lEWSp>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Integração currículo e tecnologias e a produção de narrativas digitais. Disponível em: <http://migre.me/gVDoA>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Narrativas digitais  e a teoria da comunicação. Disponível em: <http://migre.me/gVDqg>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Narrativas digitais na escola. Uma experiência que pode ser fantástica. Disponível em: <http://migre.me/gVDq7>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Narrativas Digitais, Narrativas Cinematográficas e o Olhar do Contador de Histórias. Disponível em: <http://migre.me/gVDqn>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Os 7 Elementos de Digital Storytelling. Disponível em: <http://migre.me/gVDrQ>. Acesso em 21.nov.2013.

  • Revista Panorama Audiovisual. Disponível em: <http://migre.me/gVDtr>. Acesso em 08.dez.2013.

  • SARESP.  Matrizes de Referência para a Avaliação - Documento Básico. Disponível em: <http://migre.me/gUYCq>. Acesso em 21.nov.2013. 

 
Por Rodrigo Abrantes e Verônica Cannatá
Publicado originalmente na edição 118, de novembro de 2014, da revista Direcional Educador.
 
 

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